Wednesday, October 22, 2008

Há onze anos apostaria todo o dinheiro em Deco?

«Podia ter chegado num barco atolado de imigrantes ilegais, famintos e desconfiados, que também ninguém teria dado por si. O rótulo dispensava a presença de holofotes, de jornalistas empilhados e comprimidos como sucata em pirâmide, com câmaras no topo. Era ele e outro, também brasileiro, com nomes bissílabos. Vinham para a Luz, mas nunca lá chegariam. O primeiro contacto com um novo futebol, mais agressivo e rápido, e sobretudo muito mais exigente, aconteceria poucos quilómetros a norte, no «satélite».
Mais do que a desconfiança que a sonoridade dos nomes Deco e Caju criava na cabeça das gentes, o próprio clube de onde vinham não era de fiar. Um Corinthians sim, mas da paradisíaca Maceió, em Alagoas, fundado apenas seis anos antes, que não competia, apenas geria os talentos que aí apareciam antes de os redireccionar. Ninguém espera que esse miúdo franzino de 20 anos com aspirações a ser o número 10 do Benfica, e que pisa pela primeira vez a Portela, seja um dia grande figura do campeonato, da Selecção e do futebol mundial. Quem seria capaz de apostar todo o dinheiro em alguém assim?
Primeiro Alverca, com Maniche, Hugo Leal, Diogo, Ramires e Caju. Depois, o Salgueiros, apenas como ponte para algo de outra dimensão. Finalmente, o F.C. Porto - onde Caju o vai reencontrar por um ano, antes de voltar a Alverca -, os títulos, a explosão, a dupla nacionalidade e a chamada de Scolari. Tudo em Deco parecia finalmente fazer sentido, com a bola sempre colada ao pé direito, fazendo vírgulas entre frases curtas, saindo a seguir curvada para dentro, com força e jeito, envolvida num passe ou num remate fatal. Depois, havia mais qualquer coisa. Não se contentava em ser estrela, arregaçava as mangas e também ele era operário.
A verdade é que pouco tempo depois de ter chegado, ainda na Honra, já havia quem sussurrasse O melhor é o Deco! Sabia-se que havia futebol ali, que podia crescer até ser um bom jogador do primeiro escalão. Mais do que isso era um tiro no escuro, um prognóstico atirado para o ar sem algo que o sustentasse. No entanto, essa capacidade de ambientar-se rápido ao novo mundo, como se fosse a sua casa desde sempre, de ir perdendo o sotaque ganho em São Bernardo do Campo, nos arredores da gigante São Paulo, e de ser capaz de fazer parte de um futebol diferente daquele que aprendeu a ver perto de si deram-lhe a dimensão que poucos atingiram. E, afinal, houve desde o início tanto contra si...
Aos 31 anos, e depois do fim precipitado num Barcelona a querer forçar novo ciclo, tem ainda o Chelsea e a Selecção para uma boa recta final. Requintado, parece determinado a ficar por mais algum tempo na memória de todos os que foram adeptos incondicionais desse futebol em que a inteligência e o talento andaram sempre interligados. Por ser como é, por poder ser dez e oito, ou médio direito se necessário, na mesma equipa e com o mesmo valor, o jogo promete ainda ser generoso com ele por mais tempo.
A sul, em Alvalade, já há muito lhe arranjaram um sucessor: João Moutinho. Fisiologicamente parecidos, com idêntica capacidade de entrega no ataque e na defesa, e muito inteligentes em campo. No entanto, com diferentes capacidades de improviso e, infelizmente, de talento. O capitão dos leões terá pensado a certa altura que é Portugal que lhe limita a evolução. Que em Inglaterra ou em qualquer outra liga de nível superior ganhará outra dimensão. A verdade é que lhe falta a diferença para Deco: ser decisivo. O 28 de Alvalade não chegou ao fim da linha, está longe de o ter feito aos 22 anos, mas será que vai crescer muito mais? Ou será sempre este grande futebolista, jogando sempre no limite máximo que os deuses lhe concederam. Afinal, eles não ficaram conhecidos por dividir o talento em partes iguais.»

Luís Mateus, MaisFutebol

Tuesday, October 14, 2008

Hoje, fiz-me sócio do Benfica. Ontem (vi-te no estádio da Luz), é o lugar em que discuto, mais dois amigos, essa coisa de ser benfiquista. E pronto. É isso.

Monday, October 13, 2008

Um caso de bipolaridade

Eu sempre gostei do Quaresma e acho-o um jogador fora de série - em termos de criatividade, acima do Ronaldo, claramente. Não deixo é de criticar aquilo que se vê. E aquilo que se viu, tirando um ou outro lance em que decidiu bem, foi uma atitude estúpida que podia ter valido muito caro à Selecção, se ficássemos em inferioridade numérica e uma péssima decisão nos últimos minutos de jogo, quando decidiu rematar com outras soluções bem mais inteligentes. Há quem defenda a tese imbecil de que "um avançado remata à baliza", como se a solução de passar a bola fosse estúpida só porque se está com a mira apontada. Acho essa teoria das coisas mais aberrantes que já li, vi e ouvi sobre futebol. E continuo a achar, mesmo em peladinhas (nas quais me criticam "Eh pá Ricardo, tu não rematas à baliza, passas sempre!"), que se eu estiver de frente para o guarda-redes, isolado, e tiver um gajo da minha equipa ao lado, o melhor é simular que remato, fazer cair o guarda-redes e meter para o meu companheiro, mas isto sou eu. Aliás, há cerca de uma semana saiu no "A BOLA" um texto do LFL sobre essa temática, referindo-se, na altura, ao Marcelinho da Naval e a uma situação idêntica. Dizia ele, Freitas Lobo, que por vezes ficar mais perto do golo é não rematar. Concordo totalmente. E isso o Quaresma algumas vezes parece não querer ver.

Quanto a ele ser genial, não tenho dúvidas sobre esse aspecto. Até acho que é uma ofensa alguém dizer que o Quaresma não o é.

Saturday, October 11, 2008

Indignação (à atenção do provedor)

Não me pareceu nada bem que o Visconde da Apúlia tenha recebido o prémio Capitão Moura vestido daquela forma. Digo mais: revelou uma péssima noção de como devem ser recebidos os convidados especiais (ainda por cima quando eles nos vêm dar presuntos, que é uma coisa que não se vê muito por aí). Aquele fatinho ridículo e amarelo do Apúlia entrou em feroz contraste com o fato engomado e limpo, capaz e eficaz, do muito mais visconde excelentíssimo senhor Capitão Moura. E subiu-lhe à cabeça, ao apuliense de gema, toda aquela festa circense e mediática - o homem queria, sem o conseguir, passar por engraçado e tudo, o que me chateou bastante, tendo em conta que o normal e justíssimo sucessor do Capitão Moura deveria ser, como é óbvio, o próprio Capitão Moura. Se isto continua assim, escrevo um mail ao Paquete de Oliveira. Este programa é uma afronta aos portugueses limpinhos.

Pergunta-masturbação

Teremos de esperar mais quantos séculos até que alguém se digne a admitir que o João Moutinho, apesar de ser bom, nunca será um grande jogador?

Thursday, October 09, 2008

Saturday, October 04, 2008

é como querer nadar sem ter o braço direito

Devo dizer que há já alguns anos que me irrita profundamente aquela ideia parola que os nossos comentadores tendem a vangloriar à punheta que, basicamente, defende que os adeptos ingleses é que são uns gajos que percebem de futebol. E isto porquê? Pois bem, como estes iluminados nos querem fazer crer, parece que os gajos são os melhores do mundo porque cantam mesmo quando a sua equipa está a levar 4 batatas na tromba. Eu, se não fosse parvo, diria que estar a levar 4 secos em casa não é lá grande coisa que me puxe a garganta para delírios vocais. Se eu não fosse completamente burro e mau adepto, diria mesmo que cantar quando a minha equipa está a perder por 4-0 é... estúpido. Mas mais do que a estupidez que se revela nessa espécie de coro da tristeza, é aquela sensação que um adepto burro como eu tem de que os gajos britânicos não estão nada a ser bons adeptos mas a dar uma de civilizados porque em todo o mundo toda a gente fala neles como o exemplo a seguir. E devo dizer, com todo o respeito que gajos bezanos sempre me merecem, que essa atitude é de uma parolada sem par. Eu no ano passado, quando estava na Luz a ver o Benfica enfardar 3 da Académica, estava muito pouco virado para desatar a cantar e a puxar pela equipa. Desconfio até que, se começasse a cantar, alguém ao meu lado puxaria de um cartão de sócio e, como um cartão a passar na ranhura, me rasgaria o cérebro como manteiga quentinha. Viva o direito a estar deprimido.

Friday, October 03, 2008

Urge não chegar aos 80 para não voltar ao 8

Correndo o risco de meter alguma água na fervura, numa altura em que a euforia nos inunda, devo dizer que o principal adversário do Benfica neste momento é o próprio Benfica, a sua grandeza e o estado bipolar com que tendemos todos a ver a realidade do nosso clube. Se a equipa nos faz sonhar? Sem dúvida que faz! Se perspectivamos um futuro MUITO melhor do que aquele que aturamos há 15 anos? Não tenho dúvidas! Mas (e há sempre um mas) talvez seja o momento certo para relembrar o mesmo que se dizia quando os resultados não apareciam: esta equipa e este projecto estão a ser construídos. Tenhamos calma, há ainda muito a fazer. Eu repito que, para este ano, não peço o campeonato, peço, acima de tudo, a clara noção por parte de todos de que no Benfica se trabalha e bem - até agora tenho visto isso. Não peço mundos e fundos porque, em futebol, as grandes equipas não se fazem de um momento para o outro. Tal como esta semana vimos uma equipa personalizada ganhar dois jogos difíceis, certamente aparecerão resultados e exibições menos exuberantes - será nessa altura importante não voltar ao 8, depois deste 80. Relembremos sempre o facto de termos um novo director desportivo, nova equipa técnica e muitos novos jogadores. Basta dizer que ontem a equipa titular tinha 5 novos jogadores mais 2 que entrararam ao longo do jogo. O Benfica parece estar a caminhar finalmente para uma ideia clara, organizada, metódica, inteligente e segura de sucesso, mas é muito cedo para a desmedida euforia. Importa consolidar o jogo da equipa - e nesse aspecto, parece-me que, ofensivamente, o Benfica está mais capaz e mais rotinado do que no sector mais recuado. A defesa ainda não oferece a seguança que qualquer grande equipa do mundo deve oferecer. Os laterais de ontem estão muitos furos abaixo da restante qualidade do plantel, o eixo defensivo continua algo permeável (se Canavarro ou Zalayeta não tivessem tido azar naquele lance da primeira parte, como ficaria o jogo? se Djaló tivesse marcado nos primeiros segundos do jogo de Sábado, o Benfica teria ganho o derby?) e as transições defensivas continuam por consolidar (Amorim, Katsou e Yebda completam-se bem mas parece-me que o grego continua a revelar algumas insuficiências no lugar de "6"). O que eu quero dizer, meus amigos, é que, apesar de toda esta alegria por uma semana de sucesso, sonho, exibições de qualidade e muita emoção e golos, o Benfica está em CONSTRUÇÃO. Se tivermos isto presente, será, primeiro, mais fácil continuar a ganhar e, segundo, quando não ganharmos, saberemos ter a noção de que é o projecto que interessa. Um campeonato é bom, mas só se tiver futuro. Prefiro ganhar 6 ou 7 vezes numa década. Para isso, não me importo de ver, na primeira época, um projecto ser consolidado. Com pés e cabeça.

Thursday, September 25, 2008

Entre a ideologia e a realidade

No Benfica, é chegado o tempo de lidar com um dilema táctico. Por um lado, Quique Flores pretende fazer desenvolver e rotinar um sistema que comporta 4 médios (que, na prática, são 2) e dois avançados. Para isso, opta por jogar com dois alas bem abertos, na maior parte dos jogos, e dois jogadores no miolo que, simultaneamente, defendem e atacam e são responsáveis por organizar e estabilizar o jogo encarnado. Por outro, a questão que se levanta - e que a realidade tem confirmado - é a extrema fragilidade de que o jogo do Benfica parece ficar refém. Os dois homens do meio (Yebda e Carlos Martins) são forçados a encarar a equipa adversária e, especificamente, o seu meio-campo, quase sempre em inferioridade numérica, o que os desgasta e faz com que a organização da equipa se desintegre por volta dos 60, 70 minutos de jogo. Basta lembrarmo-nos dos 4 jogos oficiais do Benfica para confirmarmos esta tendência de desgaste físico destes dois homens e, por consequência, de toda a disponibilidade colectiva. Quique, em recente entrevista a "A BOLA", vem reforçar a ideia de que é este o seu modelo de jogo mas, curiosamente, após a mesma entrevista, fez entrar em Paços de Ferreira um modelo relativamente diferente, "puxando" Amorim para a direita, como interior no apoio ao trabalho defensivo dos dois jogadores do meio-campo (ao contrário do que gosta de fazer, ou seja usar um ala vertical e menos interventivo nos movimentos interiores da equipa), deixando na esquerda, o único verdadeiro extremo, Reyes. A equipa ganhou solidez defensiva, soube subir no terreno com maior certeza e as trocas de bola acabaram por ter maior segurança do que, por exemplo, em Nápoles. No entanto, o espanhol pareceu mais uma vez algo inadaptado aos seus jogadores e algo desagradado com este modelo, uma vez que na segunda parte, quando o Benfica deveria estar a gerir tranquilamente o jogo e não, como se verificou, extremamente pressionado, decidiu retirar os dois melhores jogadores (Nuno Gomes e Amorim), entrando para os seus lugares Aimar (que vinha de lesão e não soube entrar bem no jogo, apesar de pormenores que sempre tem que revelam a sua grande qualidade) e Balboa, um jogador que parece não vir acrescentar nada de novo à equipa, nem como ala ofensivo, nem como apoio aos processos defensivos. A equipa recuou, partiu-se, voltou a ter apenas dois homens no meio (já muito desgastados) e o Paços acabou o jogo com grandes possibilidades de empatar um jogo que, ao intervalo, parecia sentenciado.A questão que deve ser colocada a Quique Flores é esta: a época que está a decorrer serve, essencialmente, para desenvolver e melhorar o seu sistema preferido (442), sendo que os resultados serão os que forem possíveis conseguir, apostando claramente na próxima época para ter sucesso, deixando que nesta a equipa seja rotinada da melhor forma OU terá - como a realidade, insistentemente, grita! - de adaptar as suas ideias aos jogadores que tem e à necessidade que o próprio jogo exige de apoiar o seu meio-campo de outra forma, se não quer usar uma táctica suicida em vários jogos? É que se a equipa do Benfica, no plano ofensivo, parece estar a trabalhar cada vez melhor, em termos defensivos, às vezes dá ideia de defender como se defende nos regionais. Está na altura de Quique Flores submeter a sua ideologia à realidade. Se o fizer, parece-me que pode formar uma grande equipa, com grande futebol e alternativas mais que viáveis para uma época de sucesso ou, pelo menos, para uma que prepare convenientemente o futuro do clube. Definitivamente. Se o não fizer, o público mais imediatista do Benfica pressioná-lo-á até se tornar insustentável a sua permanência à frente do grupo de trabalho. E isso seria uma consequência trágica para o futuro a curto e médio prazo dos encarnados.

Friday, September 19, 2008

As memórias escorrem, como sangue viscoso, por nós abaixo. Primeiro, quase sólidas, fogem-nos devagar, como se quisessem - e pudessem - aparecer-nos ao presente, por uma estranha e mágica e surreal realidade; depois, nas segundas instâncias do pensamento, descem-nos até aos pés como lava irequieta, embora lenta, que vai perdendo solidez montanha abaixo. As memórias, como lava ou como sangue ou como água, escorrem-nos e deixam pedaços de si nas zonas baixas das marés, nos fundos de poços, nas estranhas planícies das noites em branco. Acontece pararmos. Olharmos um resquício de memória junto a uma pedra, num dos vales por onde correu e desaguou uma delas. Ocorre pegarmos-lhe, como coisa inusitada, curiosa e fria. Um meteorito de rememorações passadas, um corpo em decomposição? uma única e possível sobrevivência. Pode ser até que, tal como uma ou mil crianças fazem neste momento, peguemos numa dessas pedras, numa dessas porções deixadas em nós pela correnteza rude do passar das horas e dos dias e dos séculos, e a atiremos à água, na vil esperança de a afundarmos no fundo do fundo do fundo de um oceano. Pode até ser que ela, esguia e persistente, antes de descer aos baixios do mar, saiba repetir-se, em saltos cada vez menos distantes, soltando círculos e círculos que ninguém sabe quando - se - têm um fim.

Monday, September 01, 2008

O diabo anda à solta... e é grunho!

Por mim era cancelar imediatamente o cartão de sócio do animal e impedir a sua entrada no Estádio da Luz... para sempre. Se mesmo numa situação de roubo descarado, nunca entenderia que um adepto entrasse no relvado e agredisse (ou empurrasse, o que queiram) um fiscal de linha, muito menos entendo quando a acção é totalmente despropositada, visto que o referido fiscal de linha não cometeu roubo algum. Animais desta estirpe não devem nunca ser identificados como benfiquistas. Ponto final.
Já agora, uma chamada de atenção para aquela puta que se diz chefe da Polícia: muito ela fala, muito ela discursa e sorri mas, mais uma vez, a desorganização e falta de segurança foram evidentes. A Polícia não tem reuniões com os stewards? Não lhes faz ver o que devem fazer? Como é que um adepto sai tranquilamente da bancada, passeia-se por largos metros do relvado, empurra um fiscal de linha e volta, todo lampeiro, ao mesmo sítio, sem quem ninguém o detenha? E, pior, depois começam a descascar em gajos que não têm nada a ver com o sucedido. Ridículo.

Saturday, August 16, 2008

Faz-me espécie

Portugal é um país simpático. Minto, Portugal é um lugar simpático. Minto, Portugal é um lugar que faz por parecer simpático, não o sendo. É uma espécie de país e é uma espécie de lugar simpático, mas nem é simpático nem é país. É uma espécie. É quase. Podia ser, podia ter sido mas nunca foi nem é. Esteve quase. Morreu na praia e morreu bem.

Conto-vos uma história de muitas deste género que podiam ser contadas:

Estava eu em Moledo do Minho, no topo do, lá está, quase país, perto de outro, esse sim, um país, quando se decidiu ir visitar um país a sério, Espanha. Apesar da cumplicidade linguística e cultural que todos sabemos existir entre a Galiza e o quase país - mais concretamente, entre a quase região, o Minho -, as diferenças, já o sabíamos, são evidentes. Então a história, muito resumida, é assim:

A fome pedia tapas. Não pedia feijões, cozidos, arrozadas, carne à bruta, guisados ou batatada, pedia uns pratos com coisinhas gostosas para picar. Para ir picando. Obviamente acompanhadas por cerveja, que de outro jeito a vida não vale a pena. O cenário era o mesmo de sempre: um bar-cafetaria com um balcão grande de madeira, muitas mesas, máquinas de jogos e vidros para a rua que os nossos irmãos gostam pouco de sentir o bafio das paredes empurarrem-nos para dentro deles próprios (como no quase país). Ocorre que, além dos bípedes que me acompanhavam, passeava-se, baixinha, uma quadrúpede de barba branca, que infelizmente (ela já o sabe) não pode entrar nos sítios de repasto dos donos - coisas de humanos. Como desde sempre estive habituado a passar temporadas largas entre os irmãos do outro lado do mundo, entrei, disse quantas pessoas eram e perguntei se fazia mal que aquele ser anão ficasse quietinho aos nossos pés. Como é óbvio, pressentindo o galego uma boa maquia entre tapas, cervejas, gelados e tudo o mais que aparecesse à vontade, fez um ar quase escandalizado e disse: "No, nada, el perrito puede venir". É lógico que já se esperava aquela reacção, mas nunca deixo de ficar surpreendido com a forma desprendida como esta gente vive. A vida e as leis obtusas. O "perrito" entrou. Ficou sossegado, enquanto nos atirávamos ferozmente a tortillas, presunto, espargos e croquetas (tudo - já foi dito - regado a cervejinha, claro está). Findo o banquete, estava na hora de fumar. No quase país, estava na hora de ir rapar frio juntamente com dois ou três desconhecidos, que bateriam o dente e falariam, olhando para o chão, como se estivessem na última hora das suas vidas: "é o vício". Não ali. Bebido o último gole de cerveja, levantei-me, fui até ao balcão e perguntei, ainda com aquele medo que temos de uma resposta ríspida do tipo "não há moedas, caralho!", se me podia trocar. Recebi 20 dentes brancos de volta e uma moeda de 10 euros em trocos. Gracías, amigo. Cheguei à máquina e estava pronta a receber moedas. Não, não precisei de pedir a um rancoroso qualquer que me fizesse o favorzinho, se pudesse ser faz favorzinho, que me ligasse a máquina. Pus as moedinhas mas pelos vistos pus moedas a mais. Pois é. O Lucky Strike custava 2.65. "Nós vivemos mesmo bem", pensei eu. Fumados uns cigarros, com mais cerveja à mistura, conversa e bem sentadinho, sem frio, numa cadeira almofadada, lá saímos do bar e do país. Não sem antes parar para encher o depósito do carro. Ah sim, sem chumbo 95 a 1.20. Realmente vivemos como lordes, devia ter pensado, mas não pensei. E lá voltei ao quase país com gasolina galega.

Monday, June 30, 2008

Somos os melhores? Somos. Mas ganhámos alguma coisa? Não. Mas somos os melhores? Somos.

Estou farto de treinadores-pais, de treinadores que, se for preciso, dormem com os seus jogadores para eles não fazerem chichi na cama; estou farto, em suma, de treinadores com a velha escola do «balneário». Quero gente competente a liderar tanto o meu clube do coração como o meu país. Para ganhar, não bastam rezas, santinhas, "salir a ganar", caravaggio, Roberto Leal ou Tony Carreira, como é óbvio para qualquer bípede. Para ganhar, é preciso... sim, isso mesmo, competência. Nem Scolari, nem Camacho revelaram tê-la para que saíssem alguma vez vencedores nos seus projectos portugueses. Um treinador não pode - que me desculpem os scolarianos, mas simplesmente NÃO PODE!!! - levar uma lição de como defender por parte da Grécia, sem ter planos ofensivos alternativos, sem ter uma ideia que fugisse do caos organizado que os próprios jogadores construíam, por sua iniciativa e qualidade, em campo. Não chega rezar a santas nem acreditar que um guarda-redes, por ter defendido penalties em eliminatórias importantes, serve, ad eternum, a uma Selecção. Não chega ir à final de um Europeu, quando esse Europeu é em Portugal e o adversário é uma equipa chamada Grécia, que defendia bem mas que tinha limitações evidentes. Não, não chega. Não me venham com os resultados de Scolari. Que resultados? Aragonés tem resultados; foi criticado por várias escolhas (entre elas, a mais polémica, a questão Raul) mas apresentou resultados no fim. E agora? Calaram-se as bocas? Claro que calaram. Quem ganha merece calar todas as bocas do mundo. Perder com a Grécia, em casa? Ser fraco, fraco, fraco a ler o jogo? Alguém viu os programas que foram dando antes do Euro, na SIC, sobre as campanhas de 2004 e 2006? Alguém viu aquele homem a falar antes dos jogos da Grécia (final) e da França (Mundial) para os seus jogadores? Estou convencido que até o Madaíl terá pensado: "isto é um treinador que estudou os adversários ou um pastor do Reino de Deus?". Absolutamente ridículo.
Não, meus amigos, no Benfica largámos um daqueles treinadores com teias de aranha e "cheiro a balneário" e trouxemos um jovem, que vê o futebol para além da proporção que conseguirão atingir as manchas de suor debaixo dos braços. Façamos, por favor, o mesmo na Selecção. Já chega de prestidigitadores. Queremos um cientista.

Wednesday, June 25, 2008

A verdade inconveniente

Às vezes fico com a sensação de que os benfiquistas ainda não se deram conta de que o Benfica já não é um dos mais fortes clubes europeus. As exigências são tantas, que eu dou por mim a perguntar-me se há algum russo ou um Sultão do Brunei por aí, a financiar o clube e a permitir aos adeptos legitimidade suficiente para que possam pedir grandes jogadores de top mundial e que possam exigir ao clube que os melhores do plantel fiquem.
Meus amigos, o Benfica está em crise. A um grande jogador, não é minimamente interessante vir para o nosso clube. O campeonato é fraco, os ordenados são baixos e o Benfica que nós vemos quando nele pensamos não é o Benfica que esses jogadores vêem. E, espantem-se, eles é que têm razão! O Benfica, no momento actual, é um clube de segunda linha europeia. Meus amigos, nós acabámos a merda do campeonato português em 4º lugar. Ouviram? Em 4º lugar!!! Quem é que está interessado em representar uma equipa que fica em 4º no campeonato português? (pensem lá um bocadinho) Pois, os medíocres e os bonzinhos. Se conseguirmos bonzinhos, já temos muita sorte. Espanta-me a crítica incisiva a tudo o que mexe, como se fosse possível poder negociar com o homem do momento, por exemplo, Arshavin ou ir a Londres buscar o Joe Cole ou ir a Milão trocar um nosso pelo Pirlo. Isso é para outros campeonatos! Nós, se queremos voltar ao patamar em que já estivemos, temos de ser inteligentes e ter um plano (que é coisa que ainda não percebi se há neste projecto de Rui Costa e Quique; espero para ver). Um plano que procure apostar nos jovens de qualidade que temos (e temo-los, não duvidem), juntamente com um bom departamento de prospecção, que nos faça aproveitar mercados menos explorados e com bons jogadores. Por isso, não devia ser de espantar que jogadores desconhecidos para nós acabem no Benfica - até pode ser positivo; caso tenham qualidade, significa que o Benfica procura alternativas visto que não tem dinheiro para contratar os que toda a gente já conhece de trás para a frente (Yebda poderá ser um desses jogadores; como Binya e Sepsi o foram no passado).
Depois há o outro problema: a pressão dos adeptos leva a que quem está responsável pelo Futebol (neste caso, Rui Costa) sinta a obrigação de trazer nomes sonantes para o clube, muitas vezes em detrimento de jogadores para as posições que estão deficitárias. Eu só oiço e leio e vejo falar em «10» e atacantes, mas alguém lê ou vê ou ouve falar num central de qualidade? Num lateral direito de qualidade? Num extremo direito de qualidade? Ninguém. Porque isso não vende. Nós andamos a fazer críticas a quem trabalha no Benfica por aquilo que lemos, vemos e ouvimos nos órgãos de Comunicação Social. Alguém dizia que estranhava que o "Record" tenha posto hoje a agenda de Rui Costa na capa do jornal. Eu pergunto: que fiabilidade tem aquilo? Até parece que o "Record" nos tem dado motivos, ao longo dos anos, para acreditarmos no que eles escrevem. É que é exactamente esta bipolaridade de que todos sofremos que nos faz analisarmos mal o que se vai passando no clube: umas vezes, dizemos que é tudo mentira o que está nos jornais; outras, para criticarmos opções, dizemos que estamos a ir pelo mau caminho, baseando a nossa análise apenas e só no que vemos escrito em jornais que nos não merecem qualquer visão de qualidade ou isenção.

É um período em que importa esperar para ver. Mas ver mesmo, ver os jogadores que se sentarão na cadeira numa conferência de imprensa, ao lado de Rui Costa e Quique Flores. Não é analisar com base em jornais mentirosos e intriguistas. Eu espero para ver. Porque é o que me resta, por uma questão de respeito por quem trabalha e porque sei que, neste momento, ser director-desportivo do Benfica não deve ser uma tarefa nada fácil. Andar por aí a apregoar a História, a Glória, os títulos do Benfica e tentar encobrir a realidade actual, tentando convencer um bom jogador, não é, seguramente, tarefa fácil. Por isso, Rui, até prova em contrário, estou contigo.

Friday, June 20, 2008

Ponto final, parágrafo.

Que o Ricardo não tem qualidade nem categoria para jogar na Selecção, já toda a gente sabe; que o Ricardo iria sofrer golos decisivos pela sua incompetência, já toda a gente esperava e era uma questão de tempo. Mas eu não posso concordar com este atirar o Ricardo para uma fogueira que comunicação social e opinião pública decidiram fazer. Alguém, no seu perfeito juízo, é capaz de achar que os 3 golos são exclusiva responsabilidade do GR? No primeiro, quem é que não travou Podolsi? Quem é que deixou o Schweinsteiger cruzar metade do campo, desde a ala até ao poste mais distante para aparecer sozinho? No segundo, alguém marcou Klose? No terceiro, apesar de empurrado, Paulo Ferreira chegaria àquela bola? Marcação entre a bola e o jogador? Não deveria ser entre o jogador e a baliza? Sim, é evidente que se fosse um guarda-redes mais competente, pelo menos uma das 3 salvava, mas não me venham com merdas, não se descubra agora o bode expiatório que serve para expiar todas as nossas frustrações.

Já agora, e Scolari? Sabe o que são bolas paradas? Sabe ver jogos? Sabe brincar com papelinhos com as alturas dos jogadores, mas, pelos vistos, não sabe preparar uma equipa para estar alertada para essa mesma altura adversária. É que isto era tão expectável, mas tão expectável - bolinha parada, pelo alto. Estava tão visto e foi o que aconteceu. Uma equipa que tem dificuldade nestes lances tem de ter, ao menos, o máximo de concentração. Nem isso.

Scolari sai pela porta pequena. Não sou ingrato - acho que fez um bom trabalho. Mas estou muito longe de embarcar nos endeusamentos que alguns fazem do brasileiro. Perder uma final contra a Grécia, em casa, é uma mancha grande demais. Não perceber minimamente o que é o jogo (o que nos custou eliminações, sempre), é uma mancha grande demais. Ser arrogante é uma mancha grande demais. Ter anunciado que saía, depois de ter dito, armado em grande apaixonado por Portugal, que quando foi o Benfica a chamá-lo antes do final do Euro ele teve de, imediatamente, recusar, é gozar connosco. Depois de ter dito que não queria jogadores a pensar em contratos, trata ele do próprio contrato e vem dizer que foi porque não lhe deram mais dinheiro. Tudo bem, cada um é livre de ganhar o dinheiro que quiser, só não venha armado em sentimental (e não devia ser tão pouco que ganhava na Selecção) porque nós não somos parvos. Depois do seu anúncio, perdemos duas vezes. Curiosamente ou não.
Vai muito bem. Já é tarde, até.

Ricardo? É medíocre. Mas quem é que lhe deu a titularidade indiscutível desde 2003?

Wednesday, June 18, 2008

Li esta frase no Estado Civil:

«nessa altura ela ainda tinha um corpo e não era, como agora, apenas uma voz».

É bonita, não é?


Saturday, June 07, 2008

Portugal -2 Turquia -0




















- Quero agradecer humildemente aos factores ocasionais que fizeram com que o Pai e a Mãe de Deco mandassem uma foda. Assistir ao futebol do produto dessa cópula tem sido das coisas mais saborosas que na minha vida tenho visto.

- Agradecer também ao coito entre Pai e Mãe de Bosingwa, Ricardo Carvalho e Moutinho. Humildemente.

- Agradecer a Petit. Que surpreendeu todos com a sua forma espectacular!

- O lance do segundo golo é a inteligência em movimento. Obrigado Moutinho.

- O Cristiano - reafirmo - está cansado. Além disso leva com 3 e 4 de uma vez. Ainda vais a tempo, puto. Mas se não fizeres um grande Euro, a gente perdoa-te. Uma época brilhante.

- Quando Pepe se antecipou a meio-campo, no lance do primeiro golo, a jogada tinha o cheiro do golo, não tinha?

- Bom jogo do Nuno. Uma assistência e muito azar nas duas bolas ao poste e trave. Que faça um grande Euro e seja vendido, é o que desejo.

- Gosto de Meireles. E gosto de Paulo Ferreira.

- Rui Costa, sem falar em basculações, esteve bem a comentar o jogo.

- "Oh what a magical right foot Deco has" - gajo da BBC Sports

Depois de tudo isto... ainda não ganhámos nada. Parem lá com os directos. A TVI é ridícula.

Friday, June 06, 2008

O estilo não é tudo mas ajuda

«O estilo não é tudo, como quer a frase batida, mas ajuda. José Mourinho sabe que o essencial é dirigir bem uma equipa, mas sabe também que algum acessório (o tal estilo) cai bem. Daí que ele trabalhe o acessório. Deixem-me lembrar um episódio acontecido na segunda-feira. O treinador do Roma, Luciano Spalletti, foi convocado a Paris por um representante de Roman Abramovich. O encontro não passou deste diálogo: "Fala inglês?", perguntou o enviado do patrão do Chelsea. Respondeu, o italiano: "Bem, quer dizer..." Não lhe pediam que declamasse Tennyson, mas que soubesse dizer a Drogba: "Me, mister. You, forward." Tendo-se atrapalhado, Spalletti perdeu o convite da sua vida. Dois dias depois, José Mourinho, em Milão, deu o espectáculo que se sabe em italiano. Até meteu uma ou outra palavra em dialecto lombardo. Tudo encenado em algumas semanas de aula em Setúbal. Estilo mostrado, agora até pode fazer só gestos, que é a melhor maneira de falar italiano.»

Ferreira Fernandes, "DN"

Friday, May 30, 2008

O Debate Quinzenal

A tarde estava triste. Não chorava mas envolvia-nos com aquele bafo frio de nuvens densas, a que é costume chamar-se de "um dia de merda". As pessoas, no entanto, pareciam não estar preocupadas. Afinal, o dia era de Debate quinzenal! Logo muito cedo começaram a chegar à Praça de São Bento os costumeiros vendedores de cachecóis com as famosas imagens da Assembleia e as bandeiras a vermelho, com a cara do melhor jogador da casa: José Sócrates, exímio driblador de questões incómodas e maestro na arte de, no semi-círculo de discussão, falar mais no que as equipas adversárias não fizeram no passado do que debater os assuntos da sua própria equipa - um génio com a gravata ao colarinho. Confesso que estava nervoso. Era a minha primeira experiência na "Casa da Democracia" e tinha sérias dúvidas sobre as prestações de António Pereira Coelho e de Ribeiro Cristóvão. Sobre o primeiro, a minha inquietação maior residia em saber se seria capaz de servir de tampão às transições económicas a que, muito provavelmente, estaria sujeito por parte da bancada adversária; já sobre o segundo, questionava-me se seria homem capaz de funcionar, em apoio, com profundidade na hora de assistir o nosso grande goleador. Para acabar com o nervosismo, eu e uns amigos, empolgados pela multidão eufórica e por uma sede indesmentível, estacionámos ao pé de uma barraca de cerveja e ali ficámos, em alegre cavaqueira, até perto do início da contenda. Estava um ambiente algo conturbado: viam-se, ao longe, os primeiros adeptos socialistas e, não fosse a imediata intervenção da autoridade, teríamos saído dali todos à batatada - continuo a dizer que as Juventudes em nada dignificam a Política, são bandos de delinquentes sempre em busca de motivos para a violência. É certo que apoiam, que gritam muito, que têm barba e que têm megafones, é certo também que, na arte da demagogia e ignorância mais suja e mais baixa, eles são peritos - afinal, estão bem instruídos desde muito novos, logo que entram nas faculdades. Por mim, deixava a política entregue aos adeptos, apenas e tão-somente aos adeptos apaixonados pelas causas; os que se sentam nas tribunas do Parlamento, não gritam e são civilizados.
Quando faltava meia-hora para o debate, acabámos a cerveja de um trago e dirigimo-nos para a entrada. Como tínhamos bilhete, estávamos tranquilos e não havia motivos para preocupações, certo? Errado. Hoje em dia, já não se pode ir à política sem que sejamos apalpados por todos os lados e olhados com descrença por energúmenos de coletes fluorescentes, como se fôssemos alguns criminosos que decidiram ir ver política, sem outro intuito que a violência gratuita. Senti-me indignado! Para além da normal apalpadela, ainda me retiraram dos bolsos um isqueiro que o PSD de Abrantes me tinha dado há mais de 10 anos, o mp3 que tinha uma música cubana sobre o "Comandante" e a fita no cabelo por revelar - nas palavras do energúmeno e cito - "razões suficientes para uma batalha campal, devido à cor alaranjada". Bom, lá entrei sem isqueiro, sem mp3 e com o cabelo desgrenhado, na esperança, porém, que o debate valesse a pena e pudesse esquecer mais uma atribulada entrada no semi-círculo do poder.
Chegados, o mesmo de sempre: alguém estava sentado na minha cadeira. Blá, blá, blá, "o seu lugar é na tribuna em cima do Luís Fazenda", "não é nada, é perto do Portas", "é sim, veja, A 22, lugar 18, tribuna bloquista". Lá saiu o barbudo, com cara de quem não comia, não dormia e não f... ingia há uns bons meses e eu, finalmente, pude encostar-me e esperar o espectáculo. Meus amigos, e que deprimente foi! Sócrates, na zona central, felizmente não fez um único passe a rasgar a bancada da direita; sempre em movimentos circulares, atirava para trás, grunhia para a frente, voltava a meter a bola no passado, chegava-se à entrada do semi-círculo direito mas logo recuava e voltava a empatar o jogo. Do lado da nossa equipa, um jogo de cintura assinalável; muita táctica, muito empolgamento, muito sorriso irónico, mas política... nem vê-la. Parecia que nenhuma das duas equipas queria ganhar. Absurdo! O mais interessante da contenda foi observar como anda o "Sistema" por estes dias em Portugal. Meus amigos, a arbitragem foi escandalosa, do princípio ao fim! Jaime Gama, que já me estava atravessado desde aquela ida a um mercado, em que não beijou nenhuma das peixeiras, foi igual a si mesmo: gritante desigualdade de critérios, autoritário em demasia com os nossos e caseirinho como sempre. Há um lance no debate que não deixa dúvidas a ninguém: quando Pedro Santana Lopes se preparava para rematar contra a baliza de Manuel Pinho, atirando-lhe com um remate em "os portugueses não têm dinheiro para comer", aparece Pedro Silva Pereira, já na primeira bancada à entrada para o átrio, que ceifa o nosso líder parlamentar com um "não diga mentiras, pá!". Punições? Nada! Nem um "Ministro da Presidência, estamos na Assembleia da República", quanto mais um "Pedro Silva Pereira, faça o favor de abandonar o Parlamento e ir tomar banho mais cedo". Escandaloso! Mais tarde no debate, já perto do fim, outro lance em que Jaime Gama, arguido no processo "Apito socrático", mostrou toda a sua tendência para a equipa da casa: estava Alberto Martins a gastar tempo, tecendo loas infinitas ao goleador José Sócrates, quando do seu lado direito um seu companheiro de bancada se vira e diz: "muito bem, muito bem", aplaudindo, meus amigos, aplaudindo! O que fez Jaime Gama? Fingiu não ouvir nada e foi complacente: "faça o favor de terminar, deputado Alberto Martins". Se isto não é um roubo de Parlamento, então não sei o que é! Muito triste. Assim não vale a pena vir à política. Se é para isto que sofremos e gastamos dinheiro, quando podíamos ter ficado em casa, confortavelmente a ver o debate pela televisão, então não vale a pena.
Quando acabou o debate, ficámos algum tempo a olhar no vazio - com aquela cara anestesiada de quem acaba de ver um debate de merda e não ganhou - e à espera que os adeptos da casa saíssem. Para meu espanto vejo, no interior do semi-círculo, Sócrates e Santos Silva numa galhofeira pegada sacarem de um cigarro e começarem a fumar em pleno terreno de debate. Eu, que tinha ficado sem isqueiro e farto de andar a fumar ao frio, sempre que me decido a sair de casa e quero - veja-se a heresia - ir comer fora, questionei o segurança que, com um ar sábio e algo arrogante, me respondeu: "Devem ter fretado a Assembleia". E eu tudo bem.

Sunday, May 25, 2008

Isto é bom. Tão bom que é crime não ler. Dá 300 anos de ignorância. Com bom comportamento, talvez chegue metade da pena. Mas só em Portugal. Ou no Brasil.

Eh pá um espanhol... mas em bom.

Com um treinador chamado Flores, parece-me que tanto o Nuno Gomes (maria amélia) como o Di María têm razão para sorrir: a cumplicidade feminina com o treinador fá-los-á titulares, com toda a certeza...

Mais a sério: acho que foi uma boa escolha. E, acima de tudo, gostei do discurso. Faço a tradução de treinadorês-realidadês: "Ó meus estúpidos e imbecis adeptos de um grande clube que está em ruínas: vamos trabalhar muito e bem para sermos vencedores mas, NÉSCIOS e broncos, vocês têm de perceber, nessas cabeças de atrasados mentais, que estamos num processo de criar uma grande equipa, com tempo e competência. Por isso, filhos da puta boçais, vamos ter calma e se não ganharmos este ano, ganharemos nos próximos. Importante é que vocês se deixem de merdas e, em vez de serem estúpidos e pedirem a minha cabeça nos primeiros meses, ganhem inteligência e acreditem neste projecto."

Eu gostei. Acho que, pela primeira vez na História do Benfica, alguém chegou e disse: o primeiro objectivo do Benfica, para este campeonato, NÃO é ser campeão. E isto, no Benfica, como se sabe, pode ser o primeiro indício de que seremos campeões.

Força Flores!

Friday, May 23, 2008

O escriba que jogou com Deus conta-nos tudo...






T
wenty years ago today the hand of God smote England

My entire qualification for writing this column is that on that day, at that time, I was there. And I

must say that I was bored stiff because we couldn't get a grip on the match. When we wanted to play fast we were inaccurate, when we wanted to be accurate we were tedious. Eleven functionaries on each side trying not to make a mistake.

On a day like that nobody expects a visit from history, but in that office full of bureaucrats there was one crazy man capable of anything. A crazy Argentinian, to boot. It is important to consider the nature of that person because, from that day on, Maradona and Argentina became synonymous. We are talking about a country with a clearly extravagant relationship with football, a country which made a deity of a footballer with a decidedly extravagant relationship with football. And that afternoon, which began so boringly, Maradona made extravagant through football and through Argentinian character.



Divine intervention

It all began with a long slalom, which was Maradona's natural way of running with a ball. Just before he reached the area, he found only opposition legs in his way and, seeing no way forward, knocked the ball up to me and looked for the return.

The problem I had playing with Diego as a team-mate was that he turned you into a spectator and, when he passed you the ball, it took a moment to remember that you were like him - a footballer. Well, perhaps not like him, but a footballer none the less.

The fact is that when I woke up, I shook a leg to try to play the one-two but did it so unskilfully that the ball was knocked forward by my marker. Looking at it in perspective, it was a smart move on my part because if I had touched it Maradona would have been offside. The fact is that nobody recognised my singular contribution, partly because I fell to the ground so clumsily that it embarrasses me to remember.

Fortunately, the eyes of the people were not on me. Because from the ground myself, and the rest of the world, from wherever they were, saw that ball rise in slow motion and then begin to come down on the edge of the six-yard box where Peter Shilton and Maradona went to challenge for it in the air. There something happened which I couldn't understand but which was called a goal and had to be celebrated as wildly as such an unpleasant match, a World Cup, England deserved. Maradona ran and celebrated without much conviction, as if his cry contained a doubt within. Strange goal, strange cry - I still didn't understand much until I got to the huddle and found out why.

From my position I suspected that Diego could not have reached up there with his head but at no point did I see his hand, nor God's. Any ethical scruples? Twenty years on we can have them, but at that moment we only felt joy, relief, perhaps a forced sense of justice. It was England, let's not forget, and the Malvinas were fresh in the memory.

In the days before the game I said that we had "a good opportunity to confound the idiots" but that was just playing the intellectual. When emotions come into the equation, nearly all of us are idiots. Also we shouldn't forget that we were Argentinians, representatives of a country that rationalises with the word "exuberance" what in other places is called cheating.



The other goal

The office was now turned upside down but the crazy man had only just begun. Shortly afterwards he received a very difficult ball in the middle of the pitch with his back to goal. He turned, took off and got into a series of tight scrapes from which he escaped perfectly.

I was accompanying him level with the far post as if I were a television camera tracking him. Diego assures me that he meant to pass to me several times but there was always some obstacle that forced him to change plans. Just as well. I was dazzled and I thought it was impossible (it still seems that way to me) that in the middle of all those problems he would have had me in mind.

If he had passed me the ball as it seems Plan A called for, I would have grabbed it in my hand and applauded. Can you imagine? But let's not deceive ourselves, I am convinced that Diego was never going to release that ball. Throughout those 10 seconds and 10 touches, he changed his mind hundreds of times because that's how the mind of genius in action works.

That celebration that put intelligence, the body and the ball in tune was an act of genius - but also in the most profound way, in footballing terms, of being Argentinian. What Maradona was doing was making Argentinians' football dream a reality: we love the ball more than the game and, for that reason, the dribble more than the pass.

When the ball went into the net I knew, in that instant, we were present at a moment of great significance: Maradona had just put on Pele's crown. Aware of the historical moment in which I was living, I did something that humanity has still not recognised. I, ladies and gentlemen, took the ball out of the net where Maradona had put it. The focus, fortunately, was still elsewhere. In fact, 20 years on, the ball keeps going into the net time and again in the memories of those who love football . . . and there was me thinking I'd taken it out. Jorge Valdano


Sunday, May 18, 2008

O tipo que vinha salvar o futebol português

Um homem que está em vários cargos - e que, portanto, tem de falar sobre vários assuntos - está muito bem e muito protegido. Tendo de falar sobre vários assuntos, não fala em nenhum. É a velha conversa do tipo que fala e não diz nada. Mas este leva aura de salvador do futebol português, dizem eles. Quem é que diz? Pois, os mesmos de sempre. Diz-se que veio revolucionar o futebol português, que, finalmente, trouxe alguma verdade à mentira que grassa(va) por estes meios desportivos. O que é que ele fez até agora? Atirou com o Boavista para a segunda divisão (sem que o Marítimo, que, segundo as leis, cometeu as mesmas ilegalidades, fosse punido de igual forma) e castigou o clube corrupto com 6 pontos (num ano em que são totalmente irrelevantes para o contexto), igual punição que teve o Belenenses por jogar com um jogador que não podia jogar. O Loureiro salvador? Deixem-me rir. É mais um agarrado aos tachos. E consta que nem sabe cozinhar...

Monday, May 12, 2008

Obrigado Rui... e Léo.

Acabo de chegar do Estádio. Ainda trago comigo a mistura de sentimentos que este dia, este jogo, esta despedida me trouxeram. Se, por um lado, assisti a uma celebração de um fantástico jogador, e o seu fim de carreira, por outro não param de assaltar-me as imagens a que, no fim do, jogo assisti. Imagens essas de um contraste absurdo, dignas, claro, de tudo o que o futebol pode oferecer: de Rui Costa, idolatrado até ao âmago por toda aquela gente, aplaudido, gritado o seu nome, cantadas as suas músicas mas também de Léo, de tronco nu, no meio do relvado, sozinho, encaminhando-se, a passos curtos, para o balneário. Não deixei de pensar - e ainda estamos para saber se será, de facto, assim - que aquela também era a noite de despedida do brasileiro e fiquei triste. Fiquei triste porque Léo, no jogo de hoje e quase sempre nos 3 anos que representou o Benfica, foi sempre o elemento que mais correu, mais quis vencer, mais lutou, menos erros cometeu. Durante estes 3 anos e hoje, no jogo de hoje, foi ele, como sempre, dos que mais carrega aquela camisola com orgulho.
Falo-vos deste contraste e não quero, de modo algum, ferir susceptibilidades: basta dizer isto: apenas e tão-só isto: Rui Costa foi e é o maior ídolo que eu tive, enquanto jogador benfiquista que eu vi jogar. Não pretendo "ensombrar" a noite de despedida do Maestro; quero, antes, deixar-vos com estas duas imagens, tão díspares, que hoje vi no Estádio da Luz. Para que pensemos. Pensemos no valor do passado e no respeito, admiração e memória que deve sempre haver num clube como o nosso, o glorioso, mas pensemos também que sem ambição pelo futuro, sem critérios definidos baseados na competência, no profissionalismo, na real valia de quem nos representa, seremos "apenas" um glorioso clube que já foi.

Tuesday, April 29, 2008

Há coisas muito fodidas nesta vida. Claro que há outras mais filhas da puta que estas, que são só fodidas, mas ainda assim... puta que pariu. Claro que a perda, a tristeza, a puta da nostalgia e a incompreensível morte são de um gajo se atirar pela janela, não fosse a janela ter uns olhos grandes de 8º andar, mas há coisas mais pequenas, menos evidentes, que nos fodem o juízo. Isto a propósito daquilo que ontem vivi, na minha própria casa. Tudo por culpa da filha da puta da preguiça. Ora bem, o caso é o seguinte: chegado a casa num final de tarde, deparo-me com a estúpida realidade de não ter absolutamente nada para comer. Não, não, não havia latas de atum, nem esparguete, nem sequer um pão castigado pelo tempo que desse para umas torradas mais duras que duras. Não entendeste leitor, não, nem tinha óleo nem douradinhos nem ervilhas nem favas nem uma merda de pacote de arroz; nem leite nem salsichas nem a puta de uma bolacha ressequida que esperasse ansiosa, dentro de uma caixa de biscoitos, atrás de atrás de atrás de uma merda qualquer na cozinha. Absolutamente nada. Entendeste? Mas sabes o que é mais grave, leitor? É que eu tinha uma coisa na cozinha: preguiça. E a puta fez o meu estômago roncar até não poder mais. Depois de sofrer estupidamente, deitei-me. Há gajos muito estúpidos. Alguém avise o meu cérebro que eu já sou adulto, se faz favor. Tenho 26 anos e tal, a meio caminho dos 27. Isto é idade para ter, pelo menos, algum amor ao bem-estar. E ódio à preguiça filha da puta.

Friday, April 25, 2008

Reler

Não há muitas formas de entender que envelhecemos. Mas há algumas. Poucas. Dessas, a que mais gosto, talvez por achá-la menos dolorosa e mais, digamos assim, artística ou bonita ou poética, é a forma que se revela nos livros. Nas linhas que sublinhámos nos livros. As frases que achámos de tal maneira perfeitas que tivemos de encontrar um lápis ou uma caneta e sublinhá-las. Com muito devoção, simplesmente sublinhá-las. E deixá-las ali, entregues e à espera de um novo leitor que chegue, ávido e sedento de leitura, àquelas mesmas palavras que nós um dia, num dia de chuva ou num dia sem chuva, achámos perfeitas para serem sublinhadas. Às vezes, e talvez demasiadas vezes, o leitor que chega é o mesmo leitor que partiu. Nós. E olhamos as linhas sublinhadas, perguntamo-nos a razão, tentamos descodificar dentro de nós o leitor antigo e procuramos compreender o que fez esse mesmo leitor amar de tal forma essas palavras para que as tivesse sublinhado. Raramente compreendemos. O leitor que as leu, as amou, as sublinhou, as devorou é já um leitor que deixou de nos pertencer. É nesse momento que envelhecemos e temos noção disso. Mas de uma forma tranquila, quase ternurenta, minto, ternurenta, compassiva, paternal até. Nasce-nos num lado da boca um esgar de afecto e passamos as linhas em busca de outras linhas. Talvez cheguemos a um ponto, a uma frase perfeita e voltemos a procurar por um lápis ou uma caneta, e sublinhemos, da mesma forma que o leitor antigo, outras linhas que o outro leitor não viu ou não quis ver ou, melhor do que tudo, não soube ver porque não lhe eram destinadas. E rimo-nos dos maravilhosos momentos que o leitor antigo deixou escapar, muito provavelmente – pensamos nós – por ingenuidade, por imaturidade, por desleixo, até por preguiça. Mas há sempre um novo leitor, que é mais velho, que vai rir de nós e das coisas que sublinhámos. Há sempre um novo lápis ou uma nova caneta que irão prolongar as mesmas linhas, descobrir outras, inventar novos momentos perfeitos no livro. E a vida, como a leitura, nunca pára para sublinhar por cima.

Wednesday, April 23, 2008

Do blogue "Benfiquistas desde pequeninos", um texto lúcido sobre o Benfica, escrito pelo escriba Pelicano:

«A Manifestação

O Sport Lisboa e Benfica é, sem sombra de dúvidas, um clube sui generis.
Começou por ser fundado nos fundos de uma farmácia. O seu principal promotor e entusiasta exerceu todas as funções possíveis e imaginárias excepto aquela que lhe seria mais obviamente destinada, a de Presidente. Um clube de futebol, sem campo de futebol, que se juntou a outro que possuía um campo mas não tinha equipa.
Mais tarde, poucos anos depois da edificação de um campo magnífico para a época, vê-se expropriado do seu estádio devido à construção de uma auto-estrada em troca de um montante muito inferior ao recente investimento e de promessas ainda hoje por cumprir.
Uns anos depois, venceu a taça latina - embrião da taça dos campeões europeus, no único ano, em 8, que lhe foi possível participar.
Uns anos depois, torna-se definitivamente o maior clube português devido à superioridade avassaladora em relação aos seus adversários durante 2 décadas. Para a história do futebol, ficou a conquista de duas taças dos campeões europeus e a presença em mais 3 finais da mesma competição em 8 épocas apenas.
Uma destas finais perdidas foi disputada no campo do adversário e outra no país de quem o derrotou. Numa delas, jogou com 10 jogadores e com um defesa-central a guarda-redes porque ainda não eram permitidas substituições.
Pelo meio, foi a única organização do país a ter eleições livres em pleno período fascista, relegando para segundo plano as proveniências sociais dos seus associados e privilegiando o benfiquismo de cada um.
Muitos anos mais tarde, sucederam-se os casos de puro espólio ao nível das arbitragens beneficiando um adversário directo. Os seus dirigentes foram provada e repetidamente alvos de intimidações e até agressões de capangas a soldo do porto.
Os anos passaram e o Benfica foi entrando numa lenta sportinguização, processo esse, que vai tomando forma cada vez mais visível. Desde a construção de uma capela porque a esposa de um presidente assim o desejava à intimidação física de associados em assembleias gerais a mando da direcção em exercício de então, parece que tem acontecido de tudo.
A campanha "Fica Amaral", a "Operação Coração", a destruição de uma equipa campeã porque se endeusou um treinador que havia tido sucesso 10 anos antes num rival, os cheques que estavam constantemente a caminho de Manchester, a hiper anunciada surpresa aos sócios num jogo de apresentação e que se consubstanciava na chegada de helicóptero da bola de jogo, o roubo descarado de um presidente em compras e vendas de passes de jogadores e terrenos e a contratação quase obsessiva de gente ligada, quase sempre de forma triste, a clubes rivais, são apenas alguns dos inúmeros exemplos demonstrativos do percurso, vá lá, caricato, do Sport Lisboa e Benfica nos últimos 15 anos.
Mesmo na bancarrota, foi possível construir-se um novo estádio, excelente, diga-se de passagem, e, contrariamente ao que seria de se esperar face aos acontecimentos desde 1994, o Sport Lisboa e Benfica tornou-se no clube com mais associados no mundo.
O Benfica é, sem sombra de dúvidas, um clube sui generis!
A contribuir para esta ideia, surge agora uma iniciativa de alguns associados. Esta iniciativa consiste numa manifestação e surge da necessidade de insurgência contra aquilo que os seus promotores chamam de "crise profunda".
No manifesto pode ler-se que o grupo é constituído por sócios indignados. Indignados com "a situação de crise profunda". Esta "crise profunda" deve-se, de acordo com quem lançou a iniciativa, depois de inúmeras promessas, à ausência de um "projecto concreto". A inexistência deste "projecto concreto" é reconhecida nas "mudanças constantes de treinadores, jogadores e perda de títulos". O objectivo da iniciativa é impedir que o mesmo suceda na próxima época.
Sinceramente, eu acho que é de louvar que os benfiquistas se preocupem e façam o que entendam ser o melhor para o Benfica. Considero igualmente que o estado de apatia em que a maioria de nós, associados do Sport Lisboa e Benfica, se tem deixado cair, é muito prejudicial para o clube. No entanto, gostava que as pessoas pensassem um bocadinho antes de tentar fazer alguma coisa.
O desejo de marcação de eleições antecipadas é, com base nos motivos evocados, simplesmente ridículo.
- A ausência de títulos não é de agora. Nos últimos 18 anos, ganhámos apenas 3 campeonatos e 4 taças de Portugal;
- A constante mudança de treinadores deveu-se, num dos casos, à iniciativa do treinador em exercício;
- O entreposto de jogadores já nasceu em 1994;
- As várias promessas (neste âmbito, leia-se "programa eleitoral") foram feitas para um triénio que ainda não terminou;
- A ausência do "projecto concreto" está por provar. A meu ver, o problema é que existe um projecto concreto, descentrado da principal razão de existência de um clube desportivo, desenvolvido por incompetentes.
Não me parece que a marcação de eleições antecipadas seja a melhor forma de não se voltar a repetir a "mesma situação" na próxima época. Que "projecto concreto" teria o Benfica na próxima época? O "projecto concreto" inexistente da direcção cessante ou o "projecto concreto" da nova direcção empossada lá para Agosto?
Esta manifestação, legítima do ponto de visto legal e estatutário mas ridícula no seu objectivo e razões apontadas, torna-se ofensiva por ser a primeira. Como é que num clube, que andou a ser roubado indecentemente por um presidente e em que sócios foram agredidos em assembleias gerais, se tenta fazer, pela primeira vez, uma manifestação devido apenas a maus resultados da equipa de futebol e que, infelizmente, já nem sequer são uma novidade?

p.s. Não precisam de mil assinaturas... dos 170 mil sócios, talvez 100 mil sejam sócios efectivos com mais de um ano de filiação, talvez 80 mil destes tenham as quotas em dia... neste caso, precisarão apenas de umas 400 assinaturas... e eu estarei lá, na assembleia, para votar contra, assim como estarei presente nas próximas eleições para votar em quem quer que seja desde que não se chame Luís Filipe Vieira e não apresente sintomas de vale-azevedite.»

Tuesday, April 15, 2008

Versões

«Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (“Unzinho e eu ganhava a sena acumulada”), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito “sim”, dito “não”, ido a Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste… Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz – aliás, o nome do bar é “Imaginário” – sentou um cara do meu lado direito e se apresentou.

- Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.

E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo. Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?

- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até que um dia…

- Eu sei, eu sei… – disse alguém sentado do outro lado dele.

Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:

- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.

- Como é que você sabe?

- Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como mandei para o ataque com tanta precisão que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um “herói”, me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude mais ser goleiro. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INPS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante…

- Ele chutaria para fora.

Quem falou foi outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio…

- E o que aconteceu? – perguntamos os três em uníssono.

- Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?

- Você…

- Morri com 28 anos.

Bem que tínhamos notado a sua palidez.

- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…

- Nem sair do gol naquela bola…

- E ter levado o chute na cabeça…

- Foi melhor – continuei – ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado…

- Você deve estar brincando – disse alguém sentado à minha esquerda.

Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.

- Quem é você?

- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As consequências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

- Quem é você? – perguntei.

- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.

- E?

Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.»

Luís Fernando Veríssimo, “Versões”, do livro “Novas comédias da Vida Privada

Tuesday, April 08, 2008

Uma tal de besta

Se há coisa que me põe capaz de saltar para a frente de um carro é a estupidez de um bom jogador. Então quando é a estupidez de um jogador assim-assim, fico capaz de meter a cabeça no forno. Vem isto a propósito de umas declarações a dar para o imbecil de um tal de Nélson, que - parece - joga na lateral direita da equipa do Benfica. Um tipo que foi contratado estava eu e uns amigos a beber copos às tantas da manhã. Alguém leu e telefonou, mandou mensagem? Já não me lembro. Alguém apareceu com a boa nova: "O Nélson é nosso!", disse alguém. Entreolhámo-nos, benfiquistas à volta de uma mesa com uma espiral de copos vazios de cerveja (talvez gin-tonic e whisky também por lá andassem), e fizemos a pergunta que, obviamente, se impunha: "Mas quem é esse gajo?". Era um gajo do Boavista. Esse tal de Nélson jogou o primeiro jogo e logo vimos nele o próximo Cafu, melhor, o Cafu com pé esquerdo. Aquilo era cruzamentos de esquerda, direita, nem sei se o homem não chegou a cruzar de cabeça. Todos de uma qualidade que dava para um gajo perguntar se estava a ver o Benfica ou o Milan. O homem fez um jogo em Villarreal tão bom tão bom que dava a sensação de que a conta bancária desse ano iria aumentar aí nuns 50 milhões de euros, no final da época. Na época seguinte, apareceu nos treinos do Seixal outro gajo: um tal de Nélson. Um gajo mais ou menos rápido, péssimo a defender, HORRÍVEL a cruzar e, acima de tudo, tinha uma qualidade excepcional: quando chegava ao meio-campo decidia adiantar a bola e começar a correr atrás dela. Geralmente ia cruzá-la 20 metros depois dos placards publicitários, ali entre o último centímetro de relvado do Estádio da Luz e a primeira cadeira vermelha onde, estranhamente, nunca estava ninguém sentado. Passou este tal de Nélson uma época inteira a tratar mal a bola e a reclamar com os colegas. Chegado o Verão, o desespero era tanto que para substituir esta aventesma, o Benfica foi buscar uma aventesma pior (mas que se julgava ser um bocadinho melhor), um tal de Luís Filipe. O outro, o Nélson, parecia estar tão deprimido que o "Record" chegou a noticiar (não se sabe se uma notícia fidedigna) que Chalana lhe apresentou um belíssimo Psicólogo, conhecido por recuperar cabeças de perdiz e cérebros de milhafre. Também tinha um bom currículo na arte de recuperar capacidades "cruzamentais" nos jogadores. Não se sabe se Nélson aceitou o repto, mas a verdade é que Luís Filipe saiu da equipa (diz-se que também começou, a partir daí, a frequentar as mesmas sessões) e lá começou o tal de Nélson a jogar. Assim-assim. Nem bom nem mau, estão a ver? Bem pelo contrário. Ora, estávamos nisto, neste assim-assim, uns dias sim, outros não, quando o tal de Nélson vem a público dizer isto: "Sou ambicioso e o desafio [jogar no estrangeiro] seria enorme. Mas sinto-me preparado, pois não tenho medo de jogar numa grande Liga da Europa". Mas isto agora é assim, é? Já não é só com os gajos bons (não digo muito bons, porque carne dessa os nossos dentes não sentem há muito tempo) que nos temos de preocupar? Agora até os assim-assim abandonam-nos por dá cá aquela palha? Eh pá metam-me lá. Eu levo uns amigos. Raios me partam se a gente quer "desafios" ou jogar em "Ligas da Europa". Não prometo resultados. Mas raios me partam todo aqui e agora se a gente queria sair do Benfica!

Thursday, April 03, 2008

Às vezes faz-me falta alguém a quem dar rosas.

Ai Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?

Sinceramente, começo a perder o interesse por certas coisas no futebol. Não que estivesse à espera de uma pena pesada para o F.C.Porto, porque não estava; até fiquei surpreendido que tenha aparecido a Liga a poder castigar o clube, mesmo que com uma pena absolutamente ridícula e bastante ajustada à realidade para que não suspeitemos dos reais interesses que estarão por detrás desta sentença (?). Enfim, acho que estou a começar a perder o interesse no futebol ou em certas coisas do futebol. E é uma junção de factos: um Benfica deprimente, sem lei, sem organização, sorumbático, com um Presidente que mente, engana, atraiçoa os adeptos, fá-los de parvos e sorri, sem que ninguém o questione das razões de tão evidente gozação com todos nós, que amamos e choramos e rimos e sofremos pelo Benfica. É este Benfica e esta merda deste país que tem uma justiça ajustada ao século XV, em que as leis estão desajustadas da realidade, em que os homens que as fazem, fazem-nas para salvaguardar futuros problemas. E então estamos nisto. Nesta lama, nesta água suja. Por um lado, o desencanto desde clube que morreu; por outro o desencanto de um país que teima em não acordar.

Vou ouvir o Camaron de la Isla.

Saturday, March 29, 2008

O que será (À flor da pele)

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque

Para ouvir na versão cantada pelo Chico e Milton, de 1976 (especial da Rede Bandeirantes). Um luxo.

Friday, March 14, 2008

Um pesadelo de 14 anos

Digam-me uma coisa: vocês têm a certeza absoluta de que não estamos em 1994, acabámos de ganhar o campeonato e "isto" que pensamos que é a nossa situação não é só um pesadelo generalizado de todos os benfiquistas? Vocês têm a certeza de que, amanhã de manhã, não vamos acordar, olhar os jornais e ver que o Isaías, o Veloso, o Rui Costa (com 21 anos), o Schwarz, o Paneira, o João Pinto, o Mozer, o Kulkov, entre tantos outros fizeram um treino duro, em que trabalharam a finalização e as bolas paradas? Vocês têm a certeza de que não somos o Benfica, mas uma equipa medíocre que é eliminado pelo Getafe? Vá, deixem-se de merdas, digam-me que isto é um pesadelo. Vou acordar agora, beijar o cachecol e ficar preocupado porque o Damásio disse ontem que o Toni não é o treinador ideal para o Benfica; que o que precisamos é de um Artur Jorge e de uma limpeza de balneário. E vou rir-me da piada...

Tuesday, March 11, 2008

Sobre a saída de Camacho...

... apetece-me dizer que, pela primeira vez desde que chegou ao Benfica, o espanhol foi tacticamente perspicaz.

Friday, March 07, 2008

Esqueço-me tantas vezes do céu, longe que estou entre prédios sujos, pessoas e dias, que quando por um acaso o meu olhar sobe ao cimo dos telhados das horas olho-o como se fosse a primeira vez. Espanta-me sempre essa promessa de poema.

Thursday, February 21, 2008

Tenho a certeza absoluta da inocência de camacho. No entanto, isso não o impedirá de ter de responder, no Julgamento de Nuremberga, pelo holocausto futebolístico que dizimou, cruelmente, milhões de Benfiquistas.
Título do "Record":

"CAMACHO RENDE-SE AO PATRÃO - «Rui Costa é o melhor jogador do Benfica»"

Portanto, temos um patrão que aceita receber ordens do seu empregado. Se o Carvalho da Silva sabe desta, ainda se candidata a Presidente do Benfica. Para receber ordens, claro.
No desamor e na morte, dói tudo. Dói tanto, tanto, tanto que até as coisas que não temos doem. No meu caso, doem-me os ovários.

Saturday, February 09, 2008

Francisco do Carmo Silveirinha

Na sala, estão quatro homens. Deitados. Alguns ligados à vida por tubos que vêm de cima até às veias. Sempre o sangue. E a falta dele. Olho-os a medo, culpado de estar de pé, culpado de respirar aparentemente bem, aparentemente sem precisar de tubos ligados às veias ou máscaras a cobrir a cara. Ninguém parece importar-se, além de mim, com a minha condição de saúde, supostamente impecável. Além de mim. Culpo-me por estar de pé ou culpo o mundo por estarem os outros deitados? Não encontro resposta.
Ao canto, ao lado da janela que timidamente deixa entrar uma luz baça, encontro o homem que é meu. Mais do que os outros três, aquele é o meu homem. O meu lugar. Beijo o homem na testa, inundado de medo e de carinho. Nunca na vida tivera esta mistura explosiva dentro de mim: medo e carinho. A questão, nas próximas horas, será saber quem ganhará o duelo das emoções. Pretende-se que seja capaz de estancar as lágrimas, de esconder os mais secretos medos, para que o carinho de dentro de mim leve o homem a viajar, sem percalços ou hesitações. O homem olha-me, triste, quase indiferente. Sabe quem sou? Sabe que em manhãs e tardes e noites iguais às que agora vive, deitado numa cama, me teve nos braços, ancorando-me à vida, prendendo-me nos braços o meu coração pequeno? O tubo, gota a gota, respira, respiram os pulmões do homem, devagarinho, respira a luz, baça, para dentro do quarto, respiramos em uníssono, os quatro homens e eu, na certeza de uma luta pelo sangue. Pela vida. Num esboçar de dor, o homem vem pedir-me, olhando-me, que o levante. Levanto-o. O seu corpo que treme, magro, exige-lhe uma força que ele não tem; seguro-o por debaixo dos braços e iço-o como uma grua iça um telhado de uma casa. Ele abraça-me. Não por carinho, mas pela necessidade que o seu corpo tem de uma âncora. Sou eu agora o ancorador. O porto seguro daquele corpo, daquele homem, daquela vida, daquele sangue que luta, contra todas as previsões, por uma réstia de esperança. Por um resto de luz. Por mais um pequeno nada. Levo o homem devagar, apalpo-lhe o peito, as costelas, as ancas, osso e tecido e, talvez, uma gordura que eu já não sinto, mas que existe, e ainda o faz poder mover-se. Antes de sair do quarto, com o homem ancorado a mim, revejo o quarto e os três homens deitados: é isto a vida, penso. É isto a morte. No corredor, duas ou três enfermeiras, muito brancas, tratam o homem como uma criança. Brincam com ele, provocam-no, à espera de uma reacção. Não há, ou quase não há. Há um olhar que se perde, muito mas muito além dos limites daquele andar, daquelas paredes, do chão, das portas, das janelas, do mundo. É um olhar para dentro. Quando o homem olha as enfermeiras, quando o homem me olha, ele não nos olha, ele olha-se; olha a luz que parece esvair-se dentro dele, mas procura ainda no escuro, ou quase escuro, um último refúgio. Levo o homem pelo corredor, digo-lhe banalidades, mentiras, esperanças, digo-lhe e digo-me, digo-nos, pequenas verdades estilhaçadas que não chegam para que o homem me reconheça. Ele só reconhece o lugar onde está. O quarto escuro em que o seu sangue se move. Ancorado a mim vai, pé ante pé, levado pela inércia da sofreguidão humana, em direcção a uma janela. Dessa janela, só a noite entra. A noite e luzes. Umas mexendo-se, por caminhos e estradas, outras estanques, como se estivessem a velar a noite. Como se nos velassem naquela noite. Chegados à janela, abro-a para sentirmos o vento e uma chuva miudinha que vem molhar-nos as pontas dos narizes. Penteio o homem, passo-lhe gotas de chuvas pela cabeça e pelo cabelo ralo. Encosto o seu corpo fraco junto ao meu, para sobrevivermos. Sobreviveremos? Sem saber a resposta, é o corpo do homem que me responde: levantando os dois braços sobre os meus ombros, o homem abraça-me. E parece que aquele abraço é o fim e o princípio de tudo. Naquele abraço, estão dias, meses, anos abraçados. Anos abraçando meses. Meses abraçando dias. Dias abraçando horas. Horas abraçando uma luz. Choro. De medo, mas mais do que tudo, de carinho.

Sunday, February 03, 2008

Ão Ão

Há quem diga que o Homem nunca esteve na Lua. Não vejo o que isso possa importar. Se nós, admiradores sagrados da transcendência, mesmo que em solo terrestre, nos satisfazemos com a precariedade solene das coisas pequenas, se nos engrandecemos com a mais simples promessa de mar para quê olharmos para o cimo do cimo? Para o alto que está além da distância que vemos? O céu, espécie de manto transparente de todas as coisas, chega-nos.
Há quem diga que o Homem nunca esteve em Terra. Que tudo não passa de uma ilusão mental colectiva, um sonho absurdo e louco de um cão que, entre refeições, decidiu estender as pernas, estender o corpo, estender o cérebro muito além do que o planeta em que vivia imaginava. E imaginou casas, coisas, árvores, gente, pedaços de terra, água, estradas sinuosas, animais, fontes, prazeres, divindades, igrejas, cruzes, sonhos, fadas, ideias, legendas, pensamentos, traduções, conversas, dunas, atalhos, vidros, esmolas, fronteiras, países, ondas, marés, paixões. Não vejo o que isso possa importar. Se respiramos, se representamos na loucura sórdida de um cérebro de um cão, então somos. Sem ponto e vírgula, sem reticências, sem exclamações ou interrogações, então, até sem ponto final somos, imagine-
se

Tuesday, January 22, 2008

A história de um Rei gordo que, triste, chora num castelo



Quanto a mim, Camacho nunca foi, nem será um bom treinador. Na sua primeira passagem pelo Benfica, não era um bom treinador. O que tinha era humildade e vontade de provar que tinha algum valor, uma vez que todos os lugares que tinha ocupado antes se tinham revelado autênticos fracassos. Chegado ao Benfica, e apoiado por uma grande maioria de adeptos, sentiu motivação e passou-a aos jogadores que conseguiram entender o que o treinador queria e tiveram alguns êxitos. Melhor, um êxito, num jogo em que tivemos sorte. Então... qual a diferença da primeira passagem de Camacho pelo Benfica para esta segunda aventura em terras lusitanas?

Não é muito complicado: Camacho continua o mesmo (mau) treinador. Além das questões que se prendem com o estudo intensivo e sabedoria do jogo (que não mudaram, continuam más), Camacho perdeu aquelas que eram as sua grandes virtudes: a garra, o querer, a disciplina, a liderança, a capacidade de motivação, a união. Porquê, pergunta-se. Haverá, certamente, várias justificações. Deixo aqui a minha:

Quando Camacho chegou ao Benfica era um treinador a perder prestígio. Depois de passagens sem êxito por dois clubes espanhóis e selecção espanhola, Juan Antonio precisava de mostrar serviço. Empenhou-se com unhas e dentes em mostrá-lo ao serviço do Benfica, com abnegação, espírito de luta, garra (afinal, as características que revelou sempre como jogador). Mesmo assim, apesar dessa vontade toda, não conseguia resultados que satisfizessem os adeptos, não fosse dar-se o caso de uma tarde de Maio em que viria a defrontar um FC Porto que - e nunca é demais lembrá-lo - pensava 3 dias à frente desse dia, na final da champions league. Com muita sorte à mistura, lá ganhou a Taça e o povo, sedento de títulos e odiando Mourinho, proclamou aos sete ventos que estava encontrado o novo Rei do Benfica, capaz de lutar até - imagine-se - contra o poderoso Porto de Mourinho, campeão europeu. O Rei, seguindo uma linha de traições digna de qualquer monarquia, deixou o povo nas ruas e lá foi ele para Castela, reinar no clube do coração. O povo chorou, chorou-o, pediu o seu regresso. Afinal, as nossas tão típicas saudade e nostalgia. Mas teve o Rei capacidade para REALmente governar? Não teve. Desculpou-se com o povo, com os nobres e saiu do trono. Terá sido por causa da nobreza, pela boçalidade do povo ou terá sido por o Rei ir (ser) nu? Aceitam-se duelos.

Numa noite de nevoeiro, em que o luso Santos perdia a batalha em terras do Douro, estava o Rei Camacho muito sossegado em mui nobre descanso, quando o povo e seu ícone máximo (Vieira) lusitano clamou por ele. E ele veio. Mas terá vindo humilde e com vontade de governar esta terra com esforço, garra, altruísmo? Pois está claro que não! O Rei veio inchado, afinal já REALmente governara. Enquanto os seus súbditos lhe beijaram os pés, andava o Rei feliz e espirituoso, mas quando o povo se apercebeu das suas incapacidades claras de líder gritaram-lhe à janela do castelo que queriam mais do seu Rei, que queriam ver aquele Rei que os abandonara uns anos atrás. O Rei, muito indignado com tal descrença nas suas capacidades, fechou-se no quarto, cabisbaixo, ausente, numa auto-comiseração sem precedentes, furioso com a vida e com aquele povo que o não entendia. O povo está hoje lá fora, em redor do castelo, a pedir que o Rei volte para terras de Castela e, ele, o Rei espera apenas que adormeçam os súbditos para sair de cavalo desta terra sombria.

Saturday, January 19, 2008

Para aqueles que almoçam e/ou jantam fora e saem à noite em Lisboa e gostam de fumar, não no frio, mas numa mesa entre amigos:


Snob (Rua do Século), A Casa do Bacalhau, A Fogueira, A Gaivota (Ericeira), A Lareira (Aveiras de Cima), A Severa, A Tasca do Careca, Adega da Tia Matilde, Albapólvora, Apuradinho (Campolide), Areias (Paço de Arcos), Bacalhau de Molho, Bar do Bairro (sala própria), Bar do Guincho, Bar do Rio, Belém Bar Café, Bica do Sapato (espaço próprio), Bonjardim, Blues Cafe, Brasileira do Chiado, Buddha Bar, Café Astória (Parede), Café de São Bento, Café do Coliseu, Café Império, Café Inn, Capricciosa, Caruso, Casa da Dízima (Paço de Arcos), Cervejanário (Parque das Nações), Cervejaria Trindade, Charcutaria (Rua do Alecrim), Chimarrão (Monsanto), Churrasqueira do Campo Grande, Cima's (Monte Estoril), City Café, City Lounge, Clandestino (Bairro Alto), Coccinella (Paço de Arcos), Come Prima, Culto da Tasca (Sintra), Cup&Cino (Entrecampos), Delfim, Doca de Santo, Dois ao Quadrado (Sintra), Eclipse, El Corte Inglés (restaurante do 7º piso), Estado Líquido (Santos), Favo de Mel (S. Sebastião da Pedreira), Faz Figura, Finalmente, Fonte da Arcada, Forno Velho, Fonte do Cabo (Ericeira), Fox Trot, Frágil, Galito (Carnide), Gambrinus, Gôndola, Grande Elias, Grilo (Carcavelos), Grogg´s (Bairro Alto), Incógnito, Jamaica (Cais do Sodré), Japa, La Moneda, Lábios de Vinho, Ladeira, Lamosa (R. Salitre), Les Mauvais Garçons, Lounge, Lux, Mah Jong, Maré Alta (Massamá), Maria Caxuxa, Maria Moranga, Marina Club (Cascais), Monte Mar (Guincho), Orange, Mãe d'Água, Masstige, Mata-Bicho (Carcavelos), Mercado do Peixe, Mercearia Vencedora (Cascais), Mercearia Vencedora (Amazónia, Lisboa), Mezzoggiorno, Music Box, O Bem-Disposto (Rua Tenente Ferreira Durão, 52), O Cantinho dos Caracóis, O Carteiro, O Funil, O Paladar (Carcavelos), Old Vik Bar (Av. Roma), Olivier, Os Arcos (Paço de Arcos), Pabe, Pancitas (Queluz), Panorama (Guincho), Papo Cheio, Pastelaria Flor das Avenidas, Pátio do Lenhador (Cascais), Peixe na Linha (Parede), People (Campo Pequeno), Piazza di Mare, Pizaria Lucca, Plateau, Portugália (Cais do Sodré e Almirante Reis), Procópio, QB (Quinta da Beloura), Recanto de Emoções, República da Cerveja (Parque das Nações), Restaurante Alfândega, Rodelas, Sacolinha (Cascais), Salt & Pepper (Campo de Ourique), Santa Marta, Santo António de Alfama, Sem Palavras (Av. Rio de Janeiro), Solar de Carnide, Solar dos Presuntos, Solar Pombalino, Stop do Bairro (Campo de Ourique), Suave (Parede), Tertúlia do Paço (Paço do Lumiar), The Taste Maker, Tório (na Tomás Ribeiro, em frente ao Pingo Doce, um piso inteiro para fumadores), Via Graça, VirGula, Xafarix.

Wednesday, January 16, 2008

Super Manchester

De facto, é um novo fenómeno esta forma de apresentar a equipa. Ferguson apresenta um 442 altamente ofensivo, com dois alas de ataque, dois avançados móveis, e dois médios, sendo que apenas um (Carrick, ou Hargreaves, como substituto) é um médio defensivo. À frente de Carrick, Anderson, um jogador fabuloso mas que ninguém pensava ser capaz de ser o segundo jogador de meio-campo. PALMAS PARA FERGUSON E QUEIRÓS! Grande equipa, processos interiorizados nas transições, os alas (Ronaldo, Giggs) recuam em harmónico quando a equipa perde a bola, os avançados (Tevez, Rooney) pressionam logo na primeira fase de construção do adversário, permitindo assim que a equipa suba e pressione toda em bloco, criando pouco ar para que o adversário respire. Se a equipa adversária sobe no terreno, o Manchester recua, sempre em bloco, para o seu meio-campo para depois lançar os contra-ataques mortíferos. Não sei se vai ganhar a Champions League este ano, mas já não há dúvidas: é a equipa mais espectacular do planeta! Ainda por cima numa época em que se elogiam tanto as questões defensivas, é de elogiar quem apenas tem um jogador com essas características, o que vem provar que um futebol, quando bem jogado, é um jogo colectivo: ataque e defesa, todos os 10 em sintonia, recuo e avanço, um harmónico perfeito.

Nesta equipa, brilha o Cristiano. Só os eternos lobbies não o deram como o melhor de 2007. Só falta para o ano darem a Robinho ou a Messi. Acordem, senhoras da FIFA! Cristiano Ronaldo leva 22 golos (16 no campeonato), e ainda estamos em Janeiro, leva assistências, fulgor, rapidez, magia aos campos de futebol. CRISTIANO RONALDO é o melhor jogador da actualidade, como o foi o ano passado. Até o Kaká sabe disso.

Let the poor boy be

Coitado do Camacho. Sinceramente, tenho pena dele. Calhou vir para o Benfica, onde ganhou uma taça de Portugal e foi considerado o D. Sebastião quando saiu. O Real, que é como o Benfica nestas merdas, lá lhe deu a oportunidade de treinar a equipa principal. Ele por duas vezes saiu, com a desculpa de que lhe não davam condições. Vem o Vieira, chama o gajo e ele vem todo contentinho a pensar que seria eternamente considerado o herói castelhano que veio salvar os pobres lusos em dificuldade. Quando começou a ver que os lusos são tão malucos como os madrilenos amuou e agora deve estar a pensar em ir treinar para outro lado, que não a Península Ibérica, cheia de malucos que gostam de futebol e sabem um bocadinho mais de tácticas do que o vizinho dele em Múrcia. Agora vêm de Inglaterra notícias sórdidas dizendo que o Newcastle está de olho no ex-lateral sarrafeiro. "Agora é que eu sou amado", pensa o espanhol, enquanto chora a distância dos murcianos, que ainda há poucos dias lhe ofereceram um Pata Negra excelentíssimo para se deliciar na "longínqua" Lisboa. Já está Camacho sonhando com céus cinzentos e público entusiasta quando se lembra de que ainda treina uma equipa de futebol e tem problemas para resolver. Coitado. Deixem o homem sair. É um favor que faz a toda a gente...

Monday, January 14, 2008

Uma gestão desportiva burra

Quanto ao valor do rapaz romeno não digo nada porque não o conheço. É importante deixarmos que, pelo menos, os jogadores joguem, antes de criticarmos a qualidade dos mesmos.

O que critico, ou questiono, é a gestão desportiva. Pelo que tenho acompanhado, o trabalho na formação tem sido dos pontos mais positivos desta direcção (ainda ontem os Juvenis foram, ganhar a Alcochete, deixando o Sporting a 7 pontos). Além de criar boas equipas, nota-se, nos escalões de formação, uma tentativa honesta e inteligente de recrutar jovens talentos, muitos deles de África, que possam vir a crescer no seio do clube e que se identifiquem com a mística benfiquista. Se há este trabalho de qualidade na formação terá de, necessariamente, haver uma continuidade no momento de transição para a equipa principal. Se Miguelito foi vendido, e tendo Léo até, pelo menos, o final da época, parecia-me muito mais acertado ir buscar o jovem Ruben Lima aos júniores e prepará-lo para, em um ou dois anos, surgir na equipa principal. É assim que se dá continuidade ao (bom) trabalho que se faz na formação. Se, de repente, vamos à Roménia contratar um jovem (e poderá ser excelente, não é isso que questiono), é óbvio que bloqueamos o processo aos jovens benfiquistas que saem da equipa dos júniores. Além disso, o Benfica tem optado por contratar jogadores muito jovens, o que, quanto a mim, é um erro. Demasiados jovens não podem fazer uma boa equipa. O Benfica tem uma falta de ideias gritante como colectivo. Só com uma boa dose de experiência pode dar a volta a esta situação. Os jovens têm de ir entrando, paulatinamente, com precaução e inteligência. E se se aposta em jovens, aposte-se nos que cá estão, e conhecem já o clube, sem que necessitem de adaptação a longo prazo.

A questão é: o Benfica precisa assim tanto de um lateral esquerdo? Sabendo que Léo é o dono do lugar, e fica até Junho (pelo menos), não é mais importante contratar um extremo-direito e um médio de intensidade alta, forte nas transições ofensiva e defensiva, que saiba fazer jogar a equipa e dar-lhe velocidade? Esses dois lugares serão colmatados? E, se sim, chegarão em 31 de Janeiro, para passarem dois meses a entender o que é o Benfica, e quando entenderem (se entenderem) já está a acabar a época?

Por mais que o romeno valha, a verdade é que custou 1,7M de euros. Junte-se-lhes os 3,7M de Diego Souza e temos 5,4M. E pensar que Miccoli não ficou por menos...

Gestão Desportiva inteligente, meus amigos. Não existe.