Friday, July 29, 2011

Uma receita para os não-sóbrios

Sempre tive a tendência para saltar passos na aprendizagem - desse facto, surgiu este cérebro meio macerado. Na arte da culinária não fui diferente: passei directamente do esparguete com atum para a criação de pratos nunca antes imaginados (provavelmente por não fazerem sentido nenhum).
Tenho até já alguns "signature dish", que, por motivos óbvios, não revelarei. O último, no entanto, poderá ser partilhado, porque não tenho a certeza de que possua capacidade bastante para a imortalidade: puré de farinheira com legumes em molho reduzido de vinho encorpado com resquícios de rolha do Baixo Alentejo e terra de legumes mal lavados.
E reza assim: cozem-se duas cenouras pequenas, meia courgette, um pimento laranja e um pimento amarelo uns bons 15 minutos, para que os bastardos fiquem entre o duro e o amolecido. Retiram-se. Aventam-se para um wok (que está muito na moda) cheio de margarina capaz de originar dois ataques cardíacos consecutivos e espera-se que, na orgia dos enroscanços, eles amoleçam e façam molho. Aí uns 10 minutos, misturando lume brando com lume forte só para o efeito-surpresa. No meio do namoro, corta-se uma farinheira alentejana aos pedaços e atira-se para o colchão de vegetais numa espécie de pornografia alimentar para maiores de 25. Baixa-se o lume para que o sexo não gere queimaduras e deixa-se em namoro uns bons 10 minutos. Quando a loucura já ganha laivos de promiscuidade inaceitável, verte-se um copo (generoso) de vinho branco e acalmam-se as hormonas dos meninos. Depois fica ali tudo a embebedar-se (eles e nós). Retira-se, faz-se uma decoração muito paneleira (mas sem a paneleirice da salsa) e serve-se.

O agrado do comensal será inversamente proporcional ao nível de sobriedade.

Bom apetite.